Cine Palácio

Uma história de amor

 

Era por isso que se dizia que a República era um pandemônio. Em 1890, um ano depois da Proclamação, quem saísse do Passeio Público e caminhasse em direção à rua do Passeio, entre as ruas das Marrecas e Senador Dantas, entenderia o significado da palavra.

 

Em sua curta extensão, a rua do Passeio abrigava o Cassino Fluminense, de fina freqüência, as austeras secretarias de Estado da Justiça e do Exterior e a primeira sede da jovem Academia Brasileira de Letras, com suas sessões ainda presididas por Machado de Assis --- tudo isso convivendo com um formigueiro que se estendia até o vizinho Largo da Mãe do Bispo, de quiosques e ambulantes vendendo broas, café, sardinhas fritas, asas de galinha, postas de porco ou bacalhau, cachaça, fumo de rolo, rifas, panelas, vassouras e tamancos. Não que fosse muito diferente no tempo do imperador --- só que, agora, parecia mais.

 

O alarde dos pregoeiros fazia daquela região uma das mais barulhentas do Rio, principalmente porque ali se concentravam também algumas animadas casas de diversões: cervejarias, dancings, restaurantes, cafés-cantantes e jardins-concerto. O próprio Passeio Público abrigava um chope-berrante --- um bar com música ao ar livre. Na esquina da rua do Passeio com Marrecas, aberto dia e noite com suas portas de vaivém, ficava o famoso Café CDM, assim chamado porque não se podia dizer o seu nome na presença de senhoras: Cu da Mãe, inspirado na dita mãe do bispo --- por sinal, senhora das mais distintas.

 

O prédio no nº 44, quase na esquina de Senador Dantas, era um palacete de origem ilustre, projeto do francês Grandjean de Montigny (1776-1850), pai da arquitetura brasileira, em que se instalou o Cassino Nacional Brasileiro --- um clube social de alto bordo, nada a ver com baralhos ou roletas. Por muito tempo, foi um dos pontos mais elegantes do Rio, notável pelas “toilettes” dos cavalheiros e senhoras que freqüentavam suas “soirées”, os bailes que começavam às onze da noite e a ceia servida às duas da madrugada, com o ágape prolongando-se até de manhã --- como o descreviam jornais como “O Paiz” e o “Jornal do Commercio”.

 

Mas a fila anda e o fim do século viu o Cassino Nacional Brasileiro chegar aos pedaços. Em 1901, seus novos proprietários, os franceses Joseph Cateysson e Charles Seguin, abreviaram-lhe o nome para Cassino Nacional e o submeteram a uma reforma por um arquiteto espanhol radicado no Brasil: o sevilhano Adolfo Morales de Los Rios (1858-1928). Morales transformou-o num suntuoso templo neomourisco e, pelo novo projeto, o Cassino deixou de ser um clube e foi adaptado para receber um complexo de variedades de palco: esquetes cômicos, números musicais, óperas-bufas, peças para crianças e, nos intervalos, projeções de cinema. Este era descrito como “o maravilhoso aparelho que desenrola esplêndidas e nítidas vistas, oferecendo um verdadeiro espetáculo de 15 a 20 minutos, sem interrupção e sem trepidação” --- o que não era verdade, porque as imagens, de tão trêmulas, eram chamadas de treme-treme. Algumas das atrações que piscavam na telinha quadrada eram os funerais da rainha Vitória, cenas da guerra do Transvaal e a passagem em revista do Exército italiano pelo imperador Guilherme II da Alemanha --- bem, era o que eles tinham na época.

 

Em 1906, o Cassino Nacional assumiu de vez sua função de feira de amostras artísticas e passou a se chamar Palace-Theatre. Oferecia 24 frisas, 28 camarotes e 716 lugares na platéia --- era permitido comer croquetes e coxinhas durante o espetáculo, desde que não se limpassem as mãos lambuzadas no veludo das poltronas. E não tinha preconceitos quanto a atrações: acolhia de cantores líricos a engolidores de fogo e cachorros de saiote. Favoritos de seu palco, em 1911, eram os torneios de luta greco-romana, com a participação de lutadores profissionais franceses, austríacos e italianos, trazidos ao Rio para enfrentar o amador brasileiro José Floriano Peixoto --- nada menos que filho do ex-presidente da República, marechal Floriano Peixoto.

 

Já então o entorno do Palace-Theatre também passava por fascinantes transformações, promovidas pelo prefeito Pereira Passos e seus sucessores. Na esteira da novíssima avenida Central (1905), ele ganharia como vizinhos prédios marcantes como o Palácio Monroe (1906), o Supremo Tribunal Federal (1907), o Museu Nacional de Belas Artes (1908), o Theatro Municipal (1909) e a Biblioteca Nacional (1910). Num Rio que deixara de ser a cidade colonial e agora ostentava fumaças de Paris, o Palace-Theatre sentia-se à vontade --- não por coincidência, seu arquiteto Morales de Los Rios fora o autor de 21 edifícios na nova avenida. E os bailes de Carnaval promovidos nos seus salões eram os mais vibrantes da cidade --- Cateysson, um dos proprietários, era também fabricante de confete.

 

Em 1917, quando a indústria do cinema ameaçava impor-se esmagadoramente sobre as artes cênicas tradicionais, uma nova mudança de denominação transformou o Palace-Theatre no Cinema Majestic. Mas ele só existiu nessa encarnação por onze dias, de 22 de julho a 1º de agosto. Por algum motivo, o Majestic logo se evaporou e restabeleceu-se a marca Palace-Theatre. E assim continuou até 1929, quando --- agora como Palácio-Teatro --- o prédio passou a integrar o império que o também espanhol Francisco Serrador estava levantando na região: a Cinelândia, ex-Largo da Mãe do Bispo. Nessa transição, o arquiteto Mathias Ferreira conservou a esplêndida fachada de Morales de Los Rios, mas, por dentro, modernizou o palacete de alto abaixo. Salas de espera, camarotes, galerias, luminárias de teto e de parede, revestimentos, relevos esculturais, grande palco, camarins, banheiros e a longa e linda galeria dando acesso ao salão --- tudo ganhou o estilo que então marcava os cinemas nos Estados Unidos: o Art Déco. A partir de agora, o espetáculo não estava só no filme. Bastava olhar em volta, dentro do cinema, para que a platéia se sentisse no futuro.

 

Os americanos a chamavam de “silver screen” --- a tela prateada. E, de fato, tudo que ela estampava parecia mágico. Durante os anos 1910 e 1920, o Palace-Theatre foi o exibidor dos filmes da poderosa Fox. Donde era nele que os cariocas assistiam a alguns dos grandes xodós do cinema mudo: o Gordo e o Magro, a vamp Theda Bara e o cowboy Tom Mix --- cujo cavalo, Tony, foi o primeiro (e certamente único!) a se hospedar num apartamento do Astor, hotel chique de Nova York, e a subir ao topo da Torre Eiffel, em Paris. Era também da Fox a dupla romântica Janet Gaynor e Charles Farrell, astros dos últimos clássicos do cinema mudo, “Sétimo céu”, de Frank Borzage, e o insuperável “Aurora”, do alemão F. W. Murnau, ambos de 1927.

 

O ano de 1927 marcou a chegada do cinema sonoro nos Estados Unidos, e a quem coube no Brasil a honra de lançar o primeiro filme “todo falado, todo cantado e todo dançado”, o pioneiro “Melodia da Broadway de 1930”? Ao novo Palácio-Teatro. E, com este, além da Fox, intensificou-se também a parceria do Palácio-Teatro com a MGM --- a Metro-Goldwyn-Mayer, que, nos anos 30, estabeleceria um padrão de qualidade que os outros estúdios em vão tentariam igualar.

 

No Rio daquela época, os dois primeiros meses do ano eram dedicados ao verão e ao Carnaval. Mas, a partir de março, tinha início o que se chamava a “saison” do cinema. E tome as estréias de gala das grandes produções da MGM, com a fachada do Palácio decorada com “affiches” gigantes, o desfile de artistas, autoridades e gente da sociedade pelos seus salões e champanhe e canapés antes e depois do filme, para gáudio dos colunistas mundanos.

 

Foram os tempos de “Mercador das selvas” (“Trader horn”, 1931), o primeiro filme rodado de verdade na África (Congo, Quênia, Sudão, Tanzânia e Uganda) e o maior sucesso do ano, apesar de hoje politicamente incorretíssimo; das superproduções estreladas por Greta Garbo, Joan Crawford e John Barrymore, como “Grande Hotel” (1932); do explosivo encontro de Clark Gable e Jean Harlow em “Terra de paixões” (1933); do luxo e do glamour de “A viúva alegre” (1934), de Ernst Lubitsch, com Jeanette MacDonald e Maurice Chevalier; do nonsense alucinado dos Irmãos Marx em “Uma noite na Ópera” (1935); e de musicais com cenários estratosféricos, como “Ziegfeld, o criador de estrelas” (1936).

 

Quando se tratava dos filmes urbanos e sofisticados, passados em Paris ou Nova York e apresentando mulheres elegantérrimas --- Norma Shearer, Mary Astor, a própria Garbo ---, a MGM mandava cópias dos vestidos que elas usavam na tela para serem expostos no cinema enquanto o filme estivesse em cartaz. Foi assim que, em 1929, a quase adolescente (20 anos) e ainda desconhecida Carmen Miranda circulava pela galeria do Palácio-Teatro, admirando nas vitrines os vestidos daquelas deusas e se perguntando se um dia usaria algo parecido --- o que, como sabemos, levaria menos de um ano para acontecer.

 

Em fins de 1936, quando já se estabelecera como um dos lugares mais queridos da cidade, o Palácio-Teatro ganhou um incômodo vizinho no nº 62 da rua do Passeio: o Cinema Metro, com 1.821 lugares, “clima de montanha” (ar condicionado), todo um know-how americano de exibição --- e, naturalmente com exclusividade, os filmes de sua empresa-mãe, a MGM. Por causa disso, o Palácio-Teatro sofreu ao ver “Ninotchka”, “O mágico de Oz” e, mais do que todos, “...E o vento levou” sendo lançados com toda a pompa na casa ao lado.

 

Nos anos seguintes, o mercado acompanhou a disputa entre o exibidor Luiz Severiano Ribeiro, a esta altura já controlando o Palácio-Teatro e dezenas de cinemas no Rio, contra a pesada presença da cadeia Metro, que já se expandia para a Tijuca e Copacabana. Em 1943, para fazer frente à concorrência, Severiano Ribeiro submeteu o Palácio-Teatro a mais uma reforma, tornando-o o melhor cinema do Rio, com 1.429 lugares, e rebatizou-o, agora de vez, como Cine Palácio.

 

Muita coisa aconteceu a partir dali. O mundo, saído há pouco de uma guerra, foi dormir em fins dos anos 40 e acordou diferente nos anos 50 --- mais doméstico e acomodado. E com uma surpresa: o cinema --- o maior veículo de diversão inventado até então --- deixara de ser o catalisador social que fora em seus primeiros tempos. Mas alguns de seus eventos ainda atraíam as atenções. Em 1954, quando a 20th Century Fox lançou a tela panorâmica com som estereofônico --- o Cinemascope ---, foi o Palácio, seu velho parceiro, quem lançou no Brasil o primeiro filme sob este processo: “O manto sagrado”. Na noite de estréia, quando a cortina se abriu lentamente e a enorme tela que ela revelava parecia não terminar nunca, a platéia de convidados sentiu um “frisson” comparável ao de quando o cinema falara pela primeira vez, menos de 30 anos antes.

 

Em 2008, as cortinas do Palácio se fecharam pela última vez. Mas, já então, ele estabelecera um recorde que nunca será batido. Desde sua primeira projeção, em 1901, ainda como Cassino Nacional, foram 107 anos contínuos exibindo filmes --- mais que qualquer cinema no Brasil. E quantos cinemas na França e nos Estados Unidos terão um cartel parecido?

 

As salas de cinema contaram a história do século XX, não apenas pelo que mostraram em suas telas, mas pelo que aconteceu entre os espectadores e os filmes. Nessas salas se contou --- em milhões de noites, beijos e emoções --- uma história de amor.

 

 

Ruy Castro

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