Passeio Público

O vizinho ilustre e histórico

 

O ano, 1783. O Rio era a capital do vice-reino, mas seus moradores estavam a um oceano de distância de qualquer sofisticação. A cidade colonial, suja, feia e torta, de ruas esburacadas, sem árvores, cheia de alagadiços, era vazia de lugares de passeio. O dia terminava ao nascer da primeira estrela e a maioria das pessoas se recolhia às suas casas, de grossas paredes de pedra. Os homens podiam ir para as tabernas, onde bebiam, batiam canecos e cantavam, mas as mulheres, os velhos e as crianças só podiam ver o mundo através das treliças. A vida era rude, bruta, crua.

 

De repente, de um pântano, fez-se um jardim francês à beira-mar --- o Passeio Público. O povo, que não tinha aonde ir, podia agora escolher entre flanar por suas aléias arborizadas ou sentar-se para ouvir recitais de música e poesia ao ar livre. Numa das faces do jardim, erigiu-se um terraço branco e geométrico --- um belvedere ---, guarnecido por dois pavilhões, com vista para a baía de Guanabara. A outra face se abria para uma nova rua, onde o dia se esticava noite adentro, com seus bailes iluminados a lampiões de óleo de peixe --- chamada, não sem razão, de rua das Belas Noites. O carioca, finalmente, se abria para os cinco sentidos.

 

O Passeio Público foi tudo isso para o Rio. Seu idealizador, o vice-rei D. Luiz de Vasconcellos, sonhara com ele desde que chegara de Portugal, em 1779, e fora morar ali perto, junto à lagoa do Boqueirão --- na verdade, um charco de águas estagnadas e mal cheirosas, tendo às margens um depósito de lixo, fonte de epidemias que infelicitavam a população. D. Luiz era um homem prático e empreendedor. Por que não presentear a cidade com a solução de um grave problema e, ao mesmo tempo, tornar mais aprazível sua própria vizinhança?

 

E assim, pediu a um amigo, o escultor, entalhador e paisagista carioca, formado em Lisboa, Valentim da Fonseca e Silva --- o mestre Valentim ---, de 29 anos, um projeto para fazer daquele brejo um espaço de que todos se orgulhassem. Valentim se empolgou. A primeira providência seria drenar e aterrar a lagoa, com o desmonte do morro das Mangueiras, bem ao lado. O que se fez a golpes de enxadas por escravos e condenados, levados a ferros para o trabalho, como então de praxe. Do sangue e do suor desses infelizes resultou um grande terreno plano, compreendendo o que seriam, no futuro, as ruas do Passeio, das Marrecas, dos Barbonos --- depois, Evaristo da Veiga --- e Senador Dantas. E, à frente delas, debruçando-se sobre o mar, que lhe vinha lamber a amurada, um hexágono de sonho: o Passeio Público.

 

Originalmente, o Passeio era um pequeno jardim botânico, com 90 espécies de árvores, como oitizeiros, mangueiras e palmeiras, escoltando um eixo principal, cortado por ruas, alamedas e canteiros simétricos em forma de triângulos, retângulos e trapézios. Entre estes, dispunham-se estátuas de deuses mitológicos, mesas e bancos de pedra, vasos e floreiras de mármore, pequenas estátuas de bronze e vários chafarizes com esculturas de aves pernaltas, cágados e jacarés. Um desses chafarizes, ao lado da entrada principal, era decorado com singelas marrecas. Ficaria tão popular que, em poucos anos, faria com que a população trocasse o nome da rua defronte, a das Belas Noites, por rua das Marrecas --- até hoje.

 

Outra atração do jardim era um outeiro artificial, dotado de uma pequena cascata e ostentando em seu cume um coqueiro de ferro, pintado com as cores naturais e com quase cinco metros de altura. Aquilo fazia a população cismar --- por que de ferro, se seria fácil plantar ali um coqueiro natural e tão pujante quanto?

 

A resposta estava numa lenda que, a ser verdadeira, explicaria tudo: a de que o vice-rei D. Luiz só teria construído o Passeio Público por causa de uma paixão secreta. Muitos anos depois, esta lenda seria recolhida e tornada épica pelo escritor Joaquim Manuel de Macedo, que a narrou em seu delicioso livro “Um passeio pela Cidade do Rio de Janeiro”, de 1862. E, por seu intermédio, a história passou à literatura.

 

Segundo Macedo, havia uma linda jovem chamada Suzana, que morava com sua avó numa casinha humilde à beira da lagoa infecta. D. Luiz, em suas caminhadas ao redor da lagoa, conhecera-a e, dizem, se apaixonara. Mas Suzana amava um rapaz pobre e desempregado, seu primo Vicente, de quem era noiva. Um dia, sem ser percebido, D. Luiz ouviu-a dizer que sonhara com a transformação do pântano num jardim. Mas que, para isso, seria preciso derrubar o coqueiro sob o qual ela jurara amor a Vicente. O vice-rei resolveu tornar realidade o sonho da garota. Como o coqueiro teria de ser derrubado, ele determinou que se erguesse um de ferro --- para viver para sempre. Quando Suzana soubesse que D. Luiz construíra o jardim por sua causa, quem sabe não se enterneceria e trocaria Vicente pelo seu amor?

 

D. Luiz tinha 37 anos ao chegar ao Rio, idade considerada avançada para um sedutor do século XVIII. Era um bom homem --- culto, paciente, moderador, estimulador de círculos literários, amigo de artistas como mestre Valentim, o pintor Leandro Joaquim e os artesãos Francisco Xavier Caldeira, o “Xavier dos Pássaros” e Francisco dos Santos Xavier, o “Xavier das Conchas”. Era também adorado pelo povo do Rio. Mas talvez não fosse dos homens mais irresistíveis do planeta. Suzana soube dele como seu benfeitor, mas não se deixou seduzir. Continuou noiva de Vicente. E D. Luiz, veja só, terminada a obra, não apenas se conformou como deu um emprego a Vicente em palácio, para que ele e Suzana pudessem se casar. D. Luiz era mesmo um bom homem.

Pode-se dizer que ele foi também o pioneiro do urbanismo no Brasil. O arruamento que mandou fazer na lagoa aterrada foi a primeira obra planejada de que se tem notícia na colônia. E o Passeio foi talvez o primeiro lugar de lazer público das Américas.

 

Mas D. Luiz voltou para Portugal em 1790 e, em seu lugar, a Corte nos mandou D. José Luiz de Castro, o Conde de Resende --- “colérico, amante do arbítrio e do despotismo, que se divertia vexando seus súditos e perseguindo-os”, segundo um historiador. Em vez de consolidar os melhoramentos de seu antecessor, escolheu executar os seus próprios, um deles, o Campo de Santana, que mandou aterrar e ajardinar com dinheiro e escravos dos moradores vizinhos. Com isso, o Passeio Público, deixado de lado, começou o seu primeiro ciclo de abandono e decadência.

 

Ciclo este que continuaria na chegada da Corte, em 1808, com o príncipe-regente D. João privilegiando as reformas do Paço de São Cristóvão e a criação de um verdadeiro Jardim Botânico, no Horto. Foi preciso que, já no Segundo Reinado, em 1860, a vinda ao Brasil do príncipe austríaco Maximiliano, primo de D. Pedro II, gerasse um fato que constrangeu o imperador. Em visita ao Passeio Público, Maximiliano sentiu um forte mau cheiro e, diante de toda a comitiva, levou o lenço ao nariz. D. Pedro ficou passado e convocou o paisagista francês Auguste Glaziou para reformar o jardim e, dois anos depois, em 1862, este lhe mostrou o resultado.

 

Apesar de francês, Glaziou converteu o Passeio num jardim inglês, então em voga na Europa. Foi-se a rigorosa simetria de Valentim e surgiram caminhos sinuosos, apontando para várias direções e oferecendo surpresas a cada momento. A alameda central foi substituída por uma grande área oval, com salas, ante-salas e um quiosque. O antigo lago gerou um riacho, cortada por pequenas pontes de ferro, e todo o jardim ganhou um gradeamento que não existia. Nesse período, o Passeio teve a glória de participar de um empreendimento gigante: o replantio da Floresta da Tijuca pelo major Archer e seus seis escravos [Maria, Constantino, Eleutério, Leopoldo, Mateus e Manuel], a mando de Pedro II. E como participou? Fornecendo mudas virgens ou oferecendo o solo para que mudas vindas de fora “pegassem” antes de ser levadas para a floresta. A idéia de que parte da maior floresta urbana do mundo nasceu ou cresceu nos humildes limites do Passeio Público é mágica.

 

Em 1889, no entanto, mais turbulências políticas. A República se impôs e condenou ao esquecimento vários logradouros identificados com o império --- um deles, a própria Floresta da Tijuca; outro, o Passeio. Ambos custariam para ser recuperados. Em 1904, o Passeio Público também sofreu com o aterro da defronte praia do Boqueirão, para dar lugar à avenida Beira-Mar, que o afastou do mar e tornou seu terraço inútil como belvedere. Por isso, em 1926, este passou a abrigar duas formidáveis construções em estilo neocolonial, o Teatro Casino, para espetáculos teatrais, e o Casino Beira-Mar, para servir de salão de bailes e festas --- ambos de enorme luxo e requinte, e, apesar do nome, nada tendo a ver com o jogo. As duas casas conheceram de saída um extraordinário sucesso.

 

Mas seu apogeu nesse novo formato também foi efêmero. Em poucos anos, elas já tinham se deteriorado como centros de lazer e diversão. A grita por sua demolição tornou-se intensa, e elas foram postas abaixo em 1937. Numa das reformas que o Passeio conheceria nas décadas seguintes, a de 2004, os engenheiros se surpreenderam ao encontrar as sólidas fundações das duas casas --- poucos sabiam que elas tinham um dia existido.

 

Assim como, hoje, ao ver o Passeio Público de novo abandonado e degradado, poucos parecem conhecer sua rica história. Se ele não puder ser reabilitado em nome do passado, que o seja em função dos que, em nossos dias, poderiam estar desfrutando de sua beleza.

 

Ruy Castro

 

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